segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Desconcerto

É, eu sei que eu provavelmente vou te chamar numa hora importuna, meio tarde pra chegar, meio cedo demais pra sair, mas eu preciso mesmo te dizer antes que tudo acabe que você é pra mim a coisa mais desconcertante do mundo, do meu mundo.
Porque eu que sou sempre assim tão confiante, tão cheia de mim, sempre com uma resposta na ponta da língua e uma dissimulação qualquer pra fugir do que me intriga – e nada me intriga. Mas você acaba com tudo isso, você é assim tão mágico, tão impenetrável, tão incompreensível, e eu mergulho em você tão profundamente que esqueço de mim, ainda que sem deixar de lembrar. Você assim, tão cheio de vírgulas, parece que desconhece os pontos finais. E apesar de entrar nessa estranheza, eu não me sinto perdida. Quanto mais eu penetro nessa escuridão que é o seu ser, mais eu te percebo e menos me encontro.
Não posso negar assim que eu às vezes gosto e às vezes nem um pouco, assim tanto quanto às vezes eu te amo e tantas outras eu te odeio. Que você é assim, sempre tão carinhoso e tão amargo, e me toca e não me toca e eu fico assim querendo me soltar e querendo me jogar nos seus braços, e que eu preciso tanto do toque dos seus lábios no meu quanto da distância entre eles. Mais ainda, um dia sem você é inimaginável, mas chega a ser um alívio quando acontece depois de tanto tempo de contato desgastante...
Como é que pode a gente viver assim, desse jeito, com essas contradições dia após dia e tanto gostar e tanto nervoso e tanta simpatia e sempre as coisas boas que compensam as ruins? Acontece. E eu me perco cada vez mais te encontro cada vez mais eu me perco cada vez mais eu te encontro cada vez mais e mais e mais. A gente se encontra e se desespera assim, nesse infinito desconcertante de coisas inefáveis chamadas sentimento.



P.S.: No momento, eu amo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Tapa na cara

Não sei como, por quê, muito menos onde, mas hoje definitivamente caiu a ficha: sou vestibulanda ano que vem. Ainda tenho dúvida entre duas carreiras, uma relativamente fácil de entrar, de renda dependendo da intensidade de trabalho, digamos que média, que ainda me abre a oportunidade de outras faculdades ainda em "juventude"; a outra, concorridíssima, de formação demorada, que exige uma entrega imensa à profissão mas traz uma renda ótima.
Falo sobre a faculdade de Letras e Medicina, respectivamente. Seja como for, exijo que meus estudos do ensino superior se dêem em uma faculdade pública: dá-lhe USP. Ambas me agradam e me assustam, cada qual num aspecto distinto mas que se encontram no aspecto humano. O contato com as pessoas - sim, formada em Letras me tornaria professora, invariavelmente seguindo os passos de meus pais; fica aí um fato para aqueles que ainda não sabem, você se parece muito mais com eles do que imagina - é um requisito obrigatório em qualquer profissão que eu vá seguir. Jamais me imaginaria trancada numa sala, trabalhando com números e intrumentos, sendo o máximo de contato interpessoal a relação chefe-subordinado.
Quero marcar a vida de alguém fazendo algo direito. Envolver-me nessa ligação profunda que um médico da especialização que eu gostaria, Oncologia, tem com seu paciente, tanto quanto um professor pode ter a simpatia extrema de seus alunos, como eu tenho com alguns professores.
O que me interessa mais é fazer as coisas com maestria, não importa a escolha. Já pesei o futuro como profissional da saúde e como educadora. Claro que não depende só de mim, mas também não é de todo independente; também posso mudar de idéia bem no meio do caminho. Só espero, um dia, acertar na minha decisão, achar aquilo que me faça bem, realizada. Pelo menos a minha escolha já é limitada, passa longe das ciências exatas e cai num abismo de humanas, com uma pendência leve às biológicas. Pessoas, pessoas.
Enfim, é normal ter dúvidas. Eu invejo aqueles que sabem desde pequenos o que querem fazer. Meu sonho infantil parece bobo, como tudo que tivemos quando criança começa a parecer quando crescemos, quando nos damos conta de que aquele tempo já passou - queria ser escritora. Tento, tento, não me acho boa o suficiente, não confio em mim. Escrevo porque gosto, não porque eu ache que alguém vá gostar, bem ao contrário. Não sou a Clarice, a Lygia, a Cora, nem posso ser, não tenho esse dom de penetrar tão fundo em minha própria essência e espelhar a de outras pessoas: eu sou as banalidades. Aflições comuns, alegrias comuns. Mas humanas.
E se continuar tão humana, devo dizer que sinto muito, minha ciência biológica, mas meu sangue é escrito.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Perfeição

Muitas pessoas acreditam que o sete é um número mágico. De fato, ele está relevantemente presente em todos os aspectos que se pode imaginar. Sete são as maravilhas do mundo, as notas musicais e os anões da Branca de Neve. Pulamos sete ondas no Réveillon, são sete os algarismos romanos e Roma foi fundada entre sete colinas. A carta de Pero Vaz de Caminha tinha sete páginas, sete rainhas na história chamaram-se Cleópatra, são sete os cargos eletivos nas eleições brasileiras. Mais ainda, são sete as artes e as cores do arco-íris. Também se tratam de sete os sábios da Grécia, as cidades sagradas da Índia, as linhas de orixá da umbanda e os deuses da antiga mitologia chinesa.
O número sete tem, ainda, um significado especial no cristianismo: em sete dias Deus criou o mundo – embora, como saibamos, o sétimo foi o dia de descanso e, talvez por isso, o mais útil –, são sete os livros do Antigo Testamento, o Pai-Nosso e a Ave Maria são compostas por sete orações cada uma. Sete pecados capitais, sete virtudes cardinais, sete sacramentos, sete chagas de Cristo. Eu não sou cristã, mas acho que numa coisa eles acertaram: sete é o número da perfeição.
Ele, coitado, que não deveria nunca ser o vilão de situação nenhuma, foi se meter logo na diferença de idade entre duas pessoas que se gostam, que se conheceram num por-acaso logo no dia 29... do sétimo mês do ano. Inconveniente, embora a culpa não seja dele, e sim de quem acredita que sete seja um número muito alto, deixando bem claro que eu não fazer parte desse grupo.
Acabaram bem por culpá-lo da separação, do impedimento, da covardia. Covardia é jogar nas costas de um número uma responsabilidade que é sua, só sua, de mais ninguém e que pode muito bem ser desconsiderada. Sei, porém, que a magia do sete não se esvaiu nesse caso; tenho certeza da beleza que é ao estarem juntos.
Engraçado o fato dessas duas pessoas nunca terem chegado a passar sete horas juntos, até seis, mas nunca sete. Talvez, talvez, ao chegarem nesse tempo não possam mais se separar. Talvez não haja mais desculpas. Talvez, a perfeição. E por que não?

domingo, 2 de novembro de 2008

E Sobre o Amor

Amor, pra mim, é sorrisos e abraços daqueles bem demorados, dos mais aconchegantes, dos infinitos. Quando a gente sabe que mesmo depois "DA" briga não vai conseguir parar de pensar na pessoa e rir de alguma lembrança que tu tenha com ela - e mais do que isso, lembrar constantemente, meio a contragosto, meio muito querendo. Amor é saudade depois de meia hora, rir de besteira e usar os cinco sentidos a seu favor, ou, dependendo do ponto de vista, contra você mesmo; mas mais do que tudo, gostar disso. Pensar que talvez, e provavelmente, valha a pena qualquer coisa, inclusive se contradizer algumas vezes, e que o importante seja como esse alguém consegue te fazer sentir até nas piores horas.
Até aí o amor pode ser amigo, quase sempre começa como um amor amigo: de repente, você começa a se imaginar beijando essa pessoa, acordando ao lado dela, fazendo sexo com ela. Quem não consegue aceitar essa visão acaba matando o amor amigo e subvertendo o outro amor, que não tem nome nem limite.