quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Pedro,

Hoje eu decidi que quero escrever mais cartas. As pessoas estão perdendo esse hábito, e eu acho tão bonito! Além disso, eu sei lidar melhor com as palavras quando são manuscritas, então nada mais óbvio. Não deveria estar escrevendo pra você, entretanto. Mas eu quero.
E uma das coisas legais de se falar sobre é essa tal de S-I-N-C-R-O-N-I-C-I-D-A-D-E, dito assim bem devagar que é pra não travar a língua, sincronicidade. Bem, eu acho que você já ouviu falar sobre, mas se não eu explico assim bem resumidamente: sincronicidade são “coincidências significativas”. Quero dizer, coincidência é quando a gente chega a um lugar e tem alguém usando uma roupa igual à nossa. Esse tipo de coisa sem graça que não dá nem vontade de comentar e tudo.
Mas vezenquando acontece uma coincidência mágica, que os mais crentes gostam de chamar de destino. Sincronicidade parece só uma explicação mais ou menos científica para isso, mas não acho que seja. Porque “destino” é uma coisa meio óbvia, sabe? Como se qualquer atitude fosse culpa dele. Sincronicidade quer dizer que as aparentes coincidências aconteceram realmente por uma razão e, na verdade, a gente identifica muito facilmente.
Posso dar, sem dificuldade, um exemplo de sincronicidade, e eu sei que você sabe em que eu tô pensando. Sei, também, que a gente deve deixar o passado para trás, mas não é por isso que devamos ignorá-lo ou fingir não sentirmos saudades. Quero dizer, sei lá se isso ainda significa algo para você, mas eu sinto.
É óbvio que eu me refiro à noite em que nos conhecemos. Acho que nunca vou conseguir parar de pensar nela como algo que deveria acontecer, entende? Não acho que exista essa história de amor à primeira vista, mas com certeza existe a pessoa certa, na hora certa; e no meu caso, você que estava lá. Você estava lá no exato dia em que eu passei a achar que talvez, TALVEZ, eu estivesse perdendo muito tempo com a pessoa errada.
E eu gostei de você tão logo te vi, Deus sabe que eu gostei de você desde o começo – só eu que demorei um pouco para perceber que era idiota tentar evitar algo do gênero quando se passava tempos e tempos vendo suas fotos, esperando seus scraps, pensando no que poderia te dizer e procurando pontos em comum. Duas comunidades. Almas gêmeas, melhor, Soulmates a partir daí, e foi você quem começou, SUA CULPA.
Soulmate, eu nunca fui o amor da vida de ninguém, mas nem Deus sabe o quanto eu quis ser da sua. E agora eu sei que eu tenho é que me afastar de você, e que você vai deixar porque não é mais o mesmo comigo, e eu acho que já me machuquei bastante. E eu queria, puta merda, como eu queria que doesse me ver partir. Como eu queria ter ainda por onde ver que, poxa, você se importa, que você sente também o que eu sinto. Porque uma palavra ou um gesto seu e eu nunca mais desejaria o desapego e a frieza.
Mas não é que eu não saiba viver sem você, porque eu sei. Eu só não quero. E acredite quando eu digo que você se tornou parte da minha vida e que se algum dia nunca, nunca mais nos falarmos posso ser muito feliz, mas vou sempre sentir sua falta. Ah, porra, eu queria tanto, tanto que você fizesse algo; mas eu não acho que vá. Tudo bem.
O que é real é o que fica, Pedro.
SOULMATE ♥ SOULMATE

Tarsila.

Pedro,

Tenho me sentido demasiado sozinha nos últimos tempos. Você também é culpado por isso, mas eu ainda me sinto mais confortável conversando contigo do que com qualquer outra pessoa, embora eu supostamente devesse ter muita gente com quem fazê-lo. Mas não parece que eu tenho, embora quem realmente já não faça parte de mim seja você.
Quer saber como é a sensação de estar sozinha no mundo, não conseguir se abrir com ninguém, sentir-se a caminho da câmara de gás toda vez que se sai da cama, como se o mundo todo conspirasse contra você? Bem, imagine morrer lentamente, perdendo um pedaço de si a cada dia. É assim que as coisas estão.
Chegou tudo num ponto onde eu preciso fazer coisas só para chamar atenção, e eu odeio quem faz isso. Mas pelo menos assim eu sou percebida. Sempre quis ser invisível, e agora que as pessoas fingem que eu sou, quero que me enxerguem. Até a alma.
Penso constantemente no quão maçante eu sou, o incômodo que eu causo para as pessoas. Pela primeira vez na vida, só me sinto confortável, segura, protegida em casa. Porém a falta de ocupação ali tem me trazido pensamentos horríveis, sabe. Mórbidos. Sim, Pedro, eu tenho pensado constantemente na morte. Isso soa depressivo, eu sei, mas é o que acontece. Todos os dias eu penso em como seria um alívio ter uma doença que deixasse meus dias contados, e um tumor é meu preferido. Eu já não tenho muitas expectativas na vida; quando olho pro futuro, a única coisa que importa é a Anita. Apego-me à lembrança de alguém que nem existe...
Estou tão cansada de tentar consertar as coisas e, depois, de fingir que está tudo bem. Nunca está, meu querido. Passei tanto tempo tentando ajudar os outros com as suas vidas que esqueci de me preocupar comigo, e agora tudo desmoronou. Até você eu perdi... talvez ainda não por completo, mas esse é o rumo que as coisas estão tomando. Quero aproveitar enquanto essa perspectiva não se torna um fato e escrever-lhe algumas coisas. Nem sempre boas, freqüentemente despedidas, que talvez não cheguem a ser entregues. O que importa não é que você leia; mas que eu escreva. É importante para mim.
Tenho uns dias muito filhos da puta. Deveriam ser bons dias, mas nem os melhores dias são realmente bons. Sempre sinto sua falta, mais do que todas as outras faltas, porque com você é uma questão de não-ver, não-tocar, não-ouvir. Porque longe é fácil a gente se ignorar, mas e frente-a-frente? O problema é a vontade de ter isso tudo, constante. Em mim, eu sei que você evita.
São tantas dúvidas que me assolam, Pedro, que eu acho impossível haver mais alguma certeza, além do sentimento que eu tenho sempre por esse tanto de pessoas que agora me doem. Algumas dessas dúvidas só você pode matar, por exemplo, será que você sente a minha falta como eu sinto a sua? Sou parte importante da sua vida, gosta de mim, se importa comigo ainda? Eu sempre vou. E se eu falar disso para alguém, sei que vão me achar idiota; na verdade, parece que estão sempre me achando, talvez eu seja. Mas eu tenho tanto medo que, se eu não continuar sendo o que eu sempre fui contigo, se eu me afastar, você me esqueça por completo. Que descubra que eu sou assim, uma pessoa substituível. É que talvez eu seja.

Amor,
Tarsila.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Pedro,

Eu vim correndo escrever. Acabei de desligar o telefone, peguei papel e caneta e pensei nesse início.
Então, absolutamente primeira e última briga que a gente teve. Talvez seja mesmo a coisa certa a fazer, talvez não; mas não importa, porque é o que VOCÊ acha certo, e é só isso que interessa, não é? Sempre dependeu tudo de ti, do que tu queria e estava disposto a fazer. E agora tu foge de mim, me culpando pela SUA decisão.
Não sei o que mudou e como mudou tão rápido, embora eu saiba que não é a primeira vez que tu me faz chorar, que tu me dói. Gostar, Pedro, não é certo ou errado, apenas é. E é um ser difícil, dolorido. Aos dezesseis anos, eu sei o que é compromisso e, de bom grado, o teria contigo. Isso você não pode jogar nas costas da minha idade, como sempre faz, foi a sua escolha e, como todas as outras, aceitei conviver com ela, porque eu ainda teria o que mais importa: você. Como o melhor amigo, mais querido, Cacto, Soulmate.
E é isso o que não dá pra aceitar perder. Daí você diz que a gente não se conhece... por que ser tão hipócrita? É pouco tempo, eu sei, dois meses e meio, mas não dizem que a intensidade supera o tempo? Fato é que, se você aceitasse essa concepção, estaria negando seus próprios princípios, porque teria que admitir que essa regra se aplica a gurias de dezesseis anos, não é?
Você disse pra eu me pôr no meu lugar, mas e você? Já esteve nele? Não, e tampouco eu pediria que tu o fizesse, porque não é legal, especialmente agora que eu perdi uma das coisas mais legais que havia. Como pode não ser legar ser você, mas eu não gostaria de saber como é. Eu não sei se gostaria de poder ser fria, quase cruel, como é o caso, e eu me acho realmente mole. E grudenta. E sem noção de limite de algumas coisas e até, vezenquando, ingênua. Mas eu gosto de não ter medo de mergulhar bem fundo nessas aberturas no chão que a gente encontra por aí, sem pensar se vai ter um colchão ou uns pregos enferrujados lá embaixo.
Portanto, embora pareça completamente o contrário, eu respeito a sua decisão. Não a aceito, e no fundo você sabe que talvez não aceite também. Só que eu sou plenamente consciente que sempre te terei comigo, é isso que dói. Pensar que uma coisa que mal começou já vai acabar.
Lembro da primeira vez que a gente se viu – “perceba como a autora mantém um conflito constante entre seus sentimentos e, embora deseje transparecer, não consegue cultivar raiva do interlocutor, sendo substituída logo por uma representação clara de pensamento nostálgico” –, tua camiseta da USP, seu olho no meu, borboletas no meu estômago. Eu. Você. Naquela noite, havia muitas estrelas no céu, e eu não inventei isso pra ficar bonito, sabe, tinha mesmo. A lua também estava bem clara no céu (e eu acho injusto dizerem que ela não tem luz própria, sendo linda como é), e era uma noite quente em pleno inverno. Pedro, era uma noite especial, singular. Como você e eu. (ISSO que é viadagem, nem vou cobrar a aula, tá?). Sinto falta daquela noite desde o momento que entrei no carro pra ir embora com a Jé, eu pensei que nunca mais te veria. Perspectiva amedrontadora, and I MEAN it.

- UMA CURIOSIDADE –
Faltavam 16 dias para o seu aniversário
- UM FATO –
Esse é o tipo de coisa que atravessa os limites de “coincidência”.

Já esqueci o que eu escrevi no começo, e não vou reler. Dessa vez eu não quero me arrepender de uma palavra sequer e, desculpa trazer isso à tona novamente – já perdi tudo que estava em risco. E, se é pra não se arrepender, que seja dito tudo, né?
Nos últimos tempos (uma das poucas expressões ambíguas de que não gosto), você tem se afastado de mim. Pouco a pouco, um movimento quase imperceptível, mas eu te senti cada vez mais distante. Dizendo, sem remorso, coisas que poderiam me magoar, e realmente magoaram. Evitando qualquer possibilidade de encontrar-se comigo, sem telefonemas... é bastante provável que eu esteja errada, mas isso pareceu medo. Temia, porque você sabe o que acontece quando a gente entra em contato, e sabe por que acontece. Estaria você fugindo disso? Presunçosamente, me peguei pensando que talvez, TALVEZ, você tenha procurado um motivo para fugir de vez. ISSO eu até aceitaria, seria até lisonjeiro. Mas me parece mais provável que seja porque você é um covarde idiota que tenta desesperadamente crescer, e peca de forma escancarada por tentar seguir o caminho mais fácil ao me ver, portanto, como uma criança imatura que ainda não sabe merda nenhuma sobre a vida, sobre responsabilidades, sobre crescer. Não, Pedro, eu sei que crescer não é fácil. E crescer não é evitar, é enfrentar. Não é desistir e fugir, é ficar e lutar. Nem sempre as razões são honráveis, é verdade, e eu egoisticamente tô tentando lutar pela minha felicidade. Porque é isso que você, senhor idiota covarde, me traz. Na maior parte do tempo, e quando você não escancara seu pensamento sobre a minha idade pejorativamente. Mas né, eu sei que é difícil convencer alguém cujo nome é “pedra” a aceitar que há a possibilidade de erro, quando vindo de si, e a possibilidade de perdão/aceitação, quando dos outros. Provavelmente, só uma pessoa cujo nome signifique “paciência” e tenha muita coragem, ou vice-versa, e que já tenha aceitado aquelas duas possibilidades seja capaz de tentar. Eu sou o “vice-versa”. E porque eu sei que você não me chama de Soulmate à-toa, visto que as palavras têm substância, eu tenho essa paciência.
Obviamente, eu espero e quero que tu volte atrás, que não seja realmente o ponto final, porque “tem coisa mais autodestrutiva que insistir sem fé nenhuma?” (Caio F.). Mas eu não acho que você vá. Eu sou orgulhosa de menos, você é demais. Você nunca se abre, mas há um momento em que é preciso fazê-lo e, mesmo odiando, eu faço. Tu é uma pessoa insubstituível, por não ser só mais um cara que me comeu, me chutou e de quem a mágoa fará falar mal aos quatro ventos. Não: contigo, as coisas boas sempre compensaram; a saudade sempre foi infinita; a afeição, ímpar. Me deu um tapa na cara quando eu precisei, talvez eu estivesse precisando desse também.
Tem uma frase que eu te mandei em depoimento, não sei se fez muito sentido pra ti, mas “no one else will have like you do”. No auge dos 16 anos de minha vida, eu sei que algumas experiências são únicas. E é raro, mas acontece de algumas delas ficaram marcadas... perpetuamente, e para bem. Você é uma das experiências.
Sabe, eu quero te dizer tanta coisa ainda... minhas próprias frases se misturam com as citações que me lembram você em tudo. Começando pelo Wonderwall, “there are many things that I would like to say to you, but I don’t know how”. Dispensa maiores explicações. Seguimos com “A” música – Nothing Else Matters. Dela, não dá pra tirar um trecho. E acho que depois de escrever “you’re a part-time lover and a full time friend”, eu não precisaria de mais uma palavra sequer.
Mas eu preciso.
De uma frase do Caio.
De uma frase minha.
O que a voz, e não as mãos, deveriam expressar.
Temo que eu, na presente situação, mal tenha força em mãos para escrever, quanto mais voz para falar. Mas foda-se.
Eu te amo.
Sem medo de me arrepender: eu vivi uma vida contigo, em dois meses e meio.
“Amo você como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor”.
(E esse foi o Caio Fernando Abreu falando por mim, como já é normal).
Sei lá, agora eu preciso me desculpar por uma porção bem-servida de coisas, sem a hipocrisia de dizer que mudarei tudo isso pra você ficar, porque elas pertencem a mim. Não aos meus dezesseis, mas à pessoa que eu sou, à minha essência.
Portanto, me desculpe por ser essa pessoa muitas vezes maçante, a quem às vezes falta percepção de limites. Desculpa se eu fui grudenta e por ter feito você se importar comigo (de verdade, seria mais fácil ter tido seu desprezo, ao invés dessa compatibilidade instantânea) e por essa pseudo carta cheia de sentimentalismo, viadagens e coisas que parecem mentira. No duro, você não sabe o quanto eu me culpo por quaisquer coisas, e eu sinto muito.
Mas se precisar, Soulmate, eu estarei... mais ou menos porrr perrrto. Anytime.


Com a sua falta antecipada e a maior sinceridade possível,
Tarsila.
(Caipira, Caips, Soulmate, Alma Gêmea, Ursinha,
Branquela, Branks, Criança, Neném, Bebê...
não importa do que chama, mas QUEM chama).


P.S.: Em duas semanas, quinta-feira, dia 30, seriam 3 meses e 1 dia. A gente quase conseguiu ultrapassar a “linha de risco”... e você é pra sempre, mesmo assim.
P.P.S.: Você vai pagar meu tratamento de tendinite.
P.P.P.S.: Eu guardaria essas folhas, só p/ me chantagear quando eu for famosa. :)
P.P.P.P.S.: Se você precisar de uma transfusão de sangue, às ordens. Medula, whatever. Só não pede o coração, que nele tu já habita um dos lugares mais bonitos.
P.P.P.P.P.S.: /gay.